
Viralizou um cartaz relacionando o “pessoal do Bolsa Família” à falta de funcionários de uma unidade da rede de restaurantes Freshouse em um shopping center de São Paulo. A administração da empresa pediu desculpas “a qualquer pessoa que tenha se sentido ofendida”, mas o caso é mais um que mostra preconceito social e desconhecimento da economia. Melhores condições é que devem atrair empregados, não um aumento de vulnerabilidade causado pela redução de programas sociais.

“Senhores clientes, por favor, tenham paciência, o pessoal do bolsa família e da cervejinha” não quer trabalhar, estamos com muita falta [de] funcionários. Obrigado”, disse o aviso.
A esmagadora maioria dos beneficiários do Bolsa trabalha sim e não quer ficar na miséria, mas precisa de uma mãozinha para viver enquanto isso não é possível – afinal, nem todos tiveram acesso à herança ou a oportunidades de educação de qualidade. E já está provado que a transferência condicionada à frequência escolar e à vacinação, critérios para participação no programa, eleva a qualidade de vida.
Os que preferem viver na pobreza, recebendo benefício, ao invés de buscarem serviço, são um ínfimo grupo. Vale lembrar que o valor médio do Bolsa pago em fevereiro foi de R$ 671,81, o que ajuda, mas não resolve.
O IBGE divulgou, no final de fevereiro, que a taxa de desemprego no país foi de 6,5% no trimestre encerrado em janeiro, o que é a menor para esse período desde 2014, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Essa taxa baixa impacta no custo da mão de obra, mais do que os programas sociais.
De uma maneira, geral, se está faltando gente para determinadas funções, o setor privado precisa melhorar os salários e condições que paga à base da pirâmide. E não exigir que eles aceitem trabalhar por qualquer coisa ou cortar a grana que os mais pobres ganham para não passar fome.
(Ao mesmo tempo, o poder público deve combater mais fortemente a inflação, principalmente dos alimentos, que corrói o poder de compra e a qualidade de vida dos trabalhadores, ajudando a reduzir salários já insuficientes.)
Justiça seja feita, esse discurso do balcão da rede de restaurantes é frequente em outros ambientes empresariais.
O empresário Rubens Menin, presidente do Conselho de Administração da MRV, defendeu mudanças no Bolsa Família e do BPC para, segundo ele, aliviar as contas públicas e aumentar a força de trabalho disponível em um evento organizado por um banco de investimentos em 27 de fevereiro. Reconheceu a importância do programa em um país com pobreza extrema, mas diz que o país precisa de “consciência fiscal”.
Uma preconceituosa matriz de interpretação do mundo considera que o programa é uma “fábrica inútil de produtores de filhos” porque é assim que ele e uma parcela do país enxergam os pobres: um grupo interesseiro que, diante da oferta de uns caraminguás, prefere parar de trabalhar.
Enquanto não abandonarmos esse tipo de pensamento, continuaremos sendo apenas o país de um futuro que nunca chega.
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